Os Direitos de Autor das partidas de xadrez

Nem copyright, nem pirataria. Viva o Creative Commons!

texto de Dirceu Viana (19/09/05), disponível em xeque.net.

«No início do século XX. o grande Emanuel Lasker tentou cobrar direitos autorais de suas partidas. A reprodução de partidas de xadrez de alto nível promovia diversão e contemplação artística, portanto, pensava o genial campeão, os artistas mereciam receber das editoras pela reprodução da obra.

Aqueles eram tempos difíceis – colheita esporádica e terra arrasada – principalmente na Europa central. Bonança sim, às vezes. Geza Maroczy chegou a comprar uma casa de 24 cômodos com o primeiro prêmio do Torneio de Monte Carlo em 1902. O match Lasker – Capablanca, de 1921, teve uma bolsa de US$ 10 mil, um dinheirão para a época.

Mas Lasker (nesta foto dos anos 1910), que perdeu todo patrimônio por causa do nazismo, assistiu de perto o fim trágico de muitos colegas – Schlechter, Steinitz, Janowsky, etc.

A idéia do direito autoral no xadrez surgiu como uma solução visionária, o campeão queria transformar as partidas numa espécie de seguro previdenciário.

O direito autoral não colou no xadrez e hoje, com a Internet, uma idéia lançada num torneio do Canadá pode ser desenvolvida ou refutada poucas horas depois num aberto no interior da Espanha. É a depuração em tempo real.

O mundo do xadrez na verdade virou um laboratório para os estudantes da Ciência da Informação. O xadrez nunca evoluiu tanto como na última década. Quantas aberturas foram desmistificadas, quantos talentos foram revelados, quantas partidas foram publicadas, quantos campeões nasceram e padeceram? A cada esquina um novo prodígio!

Os cientistas estão descobrindo o que nós, enxadristas, experimentamos desde sempre. Que o verbo que impulsiona o conhecimento nestes tempos hiper-modernos não é mais o “trocar”, ou o “licenciar”, ou o “controlar”. Marx escreveu que “tudo que é sólido se desmancha no ar”; hoje escreveria, “tudo que é sólido se digitaliza na rede”. O verbo que devemos flexionar é o “compartilhar”; compartilhar o conhecimento. Todos depositam suas idéias num único ciberespaço e todos tiram delas o proveito que bem convier, até que a contribuição de cada um volte para a rede. E o jogo recomeça. Não é assim na defesa Siciliana?

Nos tempos de Lasker era possível controlar a informação. Lembrem-se, Marshall guardou por anos sua novidade na Ruy Lopez, esperando por Capablanca. Até há bem pouco tempo, na semi-final do mundial em Buenos Aires 1980, Korchnoi ganhou a partida decisiva de Polugaevsky com uma sugestão de Najdorf, então revelada na coluna do Clarín. Incrível, os russos perderam o match por causa de uma sugestão do árbitro, que foi publicada no jornal do dia!

Nada disso seria possível hoje, com bancos de dados online, boletins eletrônicos, etc. E creio também que não há o que reclamar. »

Sobre Francisco Vieira

Estudioso da origem e simbologia do xadrez. Filiado na FPX.
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